“O dever chama-me”

Um texto de Beatriz Sanguedo – 12º 1

Atenas, 6 de abril de 2016

Querido João,

 Espero que te encontres bem. Há seis meses estava a abraçar-te naquele aeroporto, cheia de expectativas, cheia de energia. Sentia o medo nos teus olhos, o medo de me perderes, mas, ao mesmo tempo, sabias o quão importante era para mim o voluntariado. Lembraste da pergunta que me fizeste assim que te despediste? “O que levas nessa mochila?”. Como sabes, limitei-me a esboçar um pequeno sorriso, sem nunca te oferecer uma resposta, porque nem eu sabia tudo o que levava na mochila. Contudo, passados estes meses, dir-te-ei o que tinha lá dentro: para além de mantimentos (como água e comida), medicamentos, a fotografia de família ao lado da tua que estão na carteira que me ofereceste nos meus anos e mais umas coisinhas, sem grande importância, trazia algo muito necessário: a força e a coragem. Vinha buscá-las à mochila quando sentia que me estavam a faltar, nos momentos de tensão, de tristeza, de medo e, até mesmo, nos de alegria. Sempre, mas mesmo sempre que precisava, pensava no amor que tinha por ti. Sempre foste o meu apoio. Como eu te amo…

Lembras-te do Isaac, aquele menino de que falei na última carta, não resistiu. A fome por que passara, os ferimentos profundos que moravam no seu corpo, o sofrimento do seu coração que transparecia no seu olhar não lhe permitiram resistir à septicemia. As condições de higiene não são as melhores. A miséria e o aglomerado de refugiados que existem neste campo não ajudam. Nós, os voluntários, fazemos o melhor que conseguimos, mas nem sempre é o suficiente e nem sempre conseguimos ajudar. Se ao menos as fronteiras se abrissem e deixassem distribuir as pessoas por outros campos…só reduziria o sofrimento e a morte.

João, há dias tão difíceis de suportar. Ter de manter e dar força aos outros não é fácil, mas é isto que me preenche. Um sorriso é o maior presente que posso receber. Sinto-me de coração cheio.

Por vezes, penso “como é possível uns terem tanto e tão bom e não se preocuparem com as necessidades pelas quais as outras pessoas passam, não ajudarem?”

A vida é tão injusta! Mas também, será que devemos combater ou viver com essa injustiça?

Está a ficar tarde, tenho de ir. O dever chama-me!

Em breve, voltarei para os teus braços.

Um beijo

Maria

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One thought on ““O dever chama-me”

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