Um texto a partir de uma imagem

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Nem um barquinho de papel

É fácil recordar-me. Existem objetos e momentos que nos plantam na memória situações vividas.

A manhã estava calma, clara e azul. O mundo parecia limpo e organizado. As pessoas passeavam devagar numa repousada manhã de domingo. Horrores ruidosos do terrorismo, gananciosos crimes de corrupção, gigantescos desastres ambientais, inúmeros migrantes em desespero, multidões de desempregados, caladas e doridas solidões… pareciam injustiças já ultrapassadas.

Na esplanada do pequeno museu, eu escutava vozes de crianças acompanhadas e felizes; via as árvores do parque que espargiam incontáveis perfumes, abria o folheto da exposição de pintura impressionista e saboreava todas as cores e sensações a que tinha acesso.

Tudo decorria como numa bela pintura. As altas árvores eram pessoas serenas que protegiam a harmonia do lugar. Os ramos, como cabelos esvoaçantes na brisa tranquila, semeavam na relva múltiplos verdes. Os montes à volta abraçavam o lugar, emoldurando-o.

Ao fundo, havia baloiços onde as crianças se divertiam e se alegravam pelos sorrisos dos pais.

Bem mais perto, estendia-se um lago onde um pequeno barco à vela deslizava com tempo e com espaço. Num plano ainda mais próximo, duas jovens remavam descontraidamente, mas eu mal lhes via os rostos; apenas os laços dos chapéus e os claros vestidos, cuja imagem dançava na limpidez da água.

Não, não era sonho, nem ilusão de ótica. Tudo era verdadeiro, apresentando-se nitidamente perante todos os meus sentidos.

Tão real como a explosão medonha que, ao fim da manhã e de repente, se fez ouvir a pouca distância.

Enquanto todos os visitantes do museu fugiam, ainda pude ver os barcos virados no lago que não perdera, estrondosamente, a cor azul.

Infelizmente, hoje, passado algum tempo, o lago está poluído e nele não flutua sequer um barquinho de papel.

 

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Liberdade

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O Sol doira
Sem literatura
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como o tempo não tem pressa…

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças…
Mas o melhor do mundo são as crianças,

Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

Mais que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca…

Fernando Pessoa

Nota: O poema revela uma certa ironia. Olhem que Fernando Pessoa lia muito! E, por isso também, tão bem escrevia!

 

E se fosse eu?

Reflexão de Tânia Pinto, 11º 8, sobre o mesmo tema

E se fosse eu? É uma pergunta tão difícil… Não sei como me pôr na posição de alguém que vive uma situação tão diferente da minha. Uma situação que acontece tão perto, mas que parece estar tão distante.
Só me resta a imaginação e com ela vejo sofrimento e sacrifício. Bem, se fosse eu, perderia o orgulho, pediria ajuda… Faria tudo para proteger os meus e até os que não o fossem. Afinal, nas piores alturas todo o apoio é um pedacinho de esperança e eu ia precisar de força, assim como os que me rodeassem. Procurando uma vida melhor que trouxesse paz e estabilidade, teria de deixar tudo o resto para trás. Considero-me um tanto nostálgica, o que seria complicado num momento tão frágil.
Sei que teria de passar por um processo de adaptação enorme e que, sendo diferente, iria sempre haver lugar para comentários. Mas as lutas não são fáceis e por isso requerem força de vontade e fé em nós mesmos, especialmente.

Se fosse eu? Quereria ajuda, precisaria de ajuda… Se fosse eu, daria mais valor ao que parece pequeno, com certeza.

 

Refugiados

Visão do problema pela Telma Sofia Almeida, 11º 8

Atualmente, a pobreza, as guerras, a política e a religião são alguns dos motivos que levam  milhares de pessoas a saírem do país ao qual pertencem, em busca de uma vida melhor.

A crise migratória é um dos temas mais falados nos últimos meses. Porém, a palavra “refugiados” muita  vezes parece assustar muitas pessoas. A falta de informação faz com que haja algum preconceito em relação a essa realidade.

Por vezes, temos que colocar algumas questões a nós próprios. Por que é que milhares de pessoas arriscam a vida, num barco, para saírem do seu país?

Sem sombra de dúvidas que, para nós, o nosso país é o nosso lar e evitamos ao máximo ter que o abandonar. Mas quando a necessidade é maior e há fortes motivos para que isso aconteça, todos têm que procurar um futuro melhor.

Para mim, é incómodo saber que os migrantes procuram melhores soluções para o futuro, mas terão sempre o estatuto de refugiados.

Lutar pela igualdade dos direitos humanos é uma batalha  de todos – por eles e por nós. Somos todos iguais. Temos que combater o preconceito!

 

E se fosse eu?

Uma reflexão de Carolina Ferreira, 11º 8

Se tivesse de me pôr na pele daqueles que mais sofrem à procura de segurança, de um refúgio e paz, deixando tudo para trás. tendo apenas a esperança de encontrar um lugar melhor nem sei o que faria.

Não é fácil colocar-me no papel de quem parte sem nada encontrar. No fundo, para tentar salvar-se. Poder somente levar uma mochila é complicado. Afinal, não poderia colocar a minha vida toda dentro dela.
Para mim, o que me manteria viva e com alguma força para seguir em frente eram as memórias que guardaria no meu coração.

Na mochila, levaria dinheiro, água, uns enlatados, algo para me poder aquecer, um carregador de telemóvel, o meu iphone, escova de dentes, toalhitas para me poder manter o mais limpa possível, mas, para mim, o mais importante seria levar uma fotografia da minha família, sem a qual não consigo viver.

Não é de todo agradável pôr-me nesta situação, mas o mais importante é que com este pequeno texto pude refletir um pouco sobre a dificuldade pelas quais os refugiados passam. Por vezes, não temos bem a noção de muitos problemas e,  por isso, faz-nos bem parar e pensar sobre estes assuntos, porque muitas pessoas sofrem sem o terem merecido e nós, que aqui estamos em segurança, não damos o devido  valor ao que temos.

E se fosse eu?

Carta a uma avó refugiada

Com certeza que esta carta não será lida pela principal destinatária, mas envio-ta, a ti, uma avó que abraça uma neta durante uma viagem de grande dureza e precariedade. Não sei se deva dizer viagem ou fuga; migração ou deportação.

Escolhi-te por seres uma mulher muçulmana, de roupas compridas, casaco de malha já gasto, lenço na cabeça a esconder-te os cabelos que imagino lisos e negros.

Desculpa tratar-te por tu, mas também sou avó. Não te  conheço bem, mas vi-te a sair de um barco com outros refugiados de diferentes idades. Pressinto-te corajosa porque arriscaste sair do teu país onde as armas amedrontam e o terror caótica se agudiza e desespera. Não receaste que te tomassem por família de terrorista e ousaste arriscar para que a vida dos que amas não continuasse eternamente por um fio.

Fixei a tua imagem ao lado da tua filha, segurando com forte ternura a tua neta para que  nada de mal lhe aconteça, para além de todos os males que vêm atingindo o teu povo nos últimos tempos. Tantas vezes por ganância e fanatismo dos poderosos.

A tua filha transportava um saco onde imagino haver roupa, alguma comida enlatada e medicamentos. Talvez haja alguma fotografia. Tudo essencial à vida, sem qualquer excesso ou desperdício.

Gostava de ter um pouco da tua coragem, procurar-te, levar-te água limpa e roupa lavada.  Poderia juntar um creme para amaciar o rosto bonito e meigo da tua neta. Ah, e levar-lhe-ia livros de histórias para que a realidade se tornasse mais amena e menos crua. E a imaginação não morresse como tantas pessoas que viajam nos mesmos barcos em que passaste, com custo e a alto preço,  o Mediterrâneo.  E também lápis de cor e um caderno para desenhar imagens felizes e não apenas de negrura do triste desalento.

Não sei o teu nome, nem tu conheces o meu, mas quero enviar-te o meu afeto e uma firme vontade de que a minha neta e a tua possam vir a viver num mundo de paz e liberdade.

Um abraço

DG

“O dever chama-me”

Um texto de Beatriz Sanguedo – 12º 1

Atenas, 6 de abril de 2016

Querido João,

 Espero que te encontres bem. Há seis meses estava a abraçar-te naquele aeroporto, cheia de expectativas, cheia de energia. Sentia o medo nos teus olhos, o medo de me perderes, mas, ao mesmo tempo, sabias o quão importante era para mim o voluntariado. Lembraste da pergunta que me fizeste assim que te despediste? “O que levas nessa mochila?”. Como sabes, limitei-me a esboçar um pequeno sorriso, sem nunca te oferecer uma resposta, porque nem eu sabia tudo o que levava na mochila. Contudo, passados estes meses, dir-te-ei o que tinha lá dentro: para além de mantimentos (como água e comida), medicamentos, a fotografia de família ao lado da tua que estão na carteira que me ofereceste nos meus anos e mais umas coisinhas, sem grande importância, trazia algo muito necessário: a força e a coragem. Vinha buscá-las à mochila quando sentia que me estavam a faltar, nos momentos de tensão, de tristeza, de medo e, até mesmo, nos de alegria. Sempre, mas mesmo sempre que precisava, pensava no amor que tinha por ti. Sempre foste o meu apoio. Como eu te amo…

Lembras-te do Isaac, aquele menino de que falei na última carta, não resistiu. A fome por que passara, os ferimentos profundos que moravam no seu corpo, o sofrimento do seu coração que transparecia no seu olhar não lhe permitiram resistir à septicemia. As condições de higiene não são as melhores. A miséria e o aglomerado de refugiados que existem neste campo não ajudam. Nós, os voluntários, fazemos o melhor que conseguimos, mas nem sempre é o suficiente e nem sempre conseguimos ajudar. Se ao menos as fronteiras se abrissem e deixassem distribuir as pessoas por outros campos…só reduziria o sofrimento e a morte.

João, há dias tão difíceis de suportar. Ter de manter e dar força aos outros não é fácil, mas é isto que me preenche. Um sorriso é o maior presente que posso receber. Sinto-me de coração cheio.

Por vezes, penso “como é possível uns terem tanto e tão bom e não se preocuparem com as necessidades pelas quais as outras pessoas passam, não ajudarem?”

A vida é tão injusta! Mas também, será que devemos combater ou viver com essa injustiça?

Está a ficar tarde, tenho de ir. O dever chama-me!

Em breve, voltarei para os teus braços.

Um beijo

Maria