Sou o número 666

nnnnA Ana Rita Carvalho  revela, no seu conto, para além dos seus múltiplos talentos e inteligência, uma grande delicadeza. Também pelos animais. Parabéns.

Seis horas, seis minutos e seis segundos. O sol, imponente, parece não querer fazer desabrochar o dia… Os pássaros não se atrevem a cantar as suas doces e suaves melodias, receosos de terminar com aquele tão angustiante, sufocante, cruel e fatal silêncio. Sendo o número 666 então, demorando ao ato da nossa morte apenas 6 segundos tenho, ora… deixa cá ver… 3996 segundos, ou seja, cerca de 66 minutos e 36 segundos de vida. Encosto-me, então, ao cantinho da minha cela, enrosco-me na minha mantinha e procuro o sossego da minha alma… Mas onde raio está metido? Desisto. Estou destinada a passar os últimos momentos da minha curta existência sobressaltada…
Acho que ainda não me apresentei… Maria Tobias; Tobi, para os amigos. Idade, 37 anos. Sou conhecida pelos meus grandes olhos verde-amarelados bem como pelo brilhante e macio casaco de pelo que visto diariamente… E talvez seja esse o motivo desta espera pela morte… Claro, também não há ninguém que trate o seu vestuário tão bem como eu! Passo, digo, passei 30% do meu tempo a limpá-lo… Para quê? Para que uns quaisquer seres desprezíveis e insensíveis que eu não consigo reconhecer possam vestir “uma das peças mais requintadas, belas e únicas do mundo”, pelos vistos.
E pensar que caí na armadilha… e pensar que também os meus filhotes poderão estar entregues a esta má sorte e que nada posso fazer para o impedir… Tudo começou há uma semana. Andava em busca de algo com que pudesse alimentar a minha família. Quando, de repente, senti um odor intenso a carne, vindo da Rua dos Destinos, nº 6. No entanto, uma vez lá, apenas encontrei uma falsa iguaria. Senti-me, durante alguns segundos, observada. Mas os meus filhotes esperavam comida ansiosamente, e eu tinha de ser breve a encontrá-la. Não podia perder tempo a investigar aquele assunto. Na manhã seguinte, voltei àquele lugar. Escondi-me, pois dois daqueles cruéis seres de que tanto vos falo estavam a construir uma armadilha; mas não uma qualquer. Aquela gaiola, marcada com o algarismo 6, tinha como objetivo capturar os da minha espécie. Todos os pormenores pareciam ter sido estudados para que não falhasse. E, de repente, deteto novamente o cheiro que me atraíra no dia anterior para aquele jardim. “À primeira caem todos; à segunda caí quem quer.” pensei eu. Bem, voltei para casa, para junto dos meus pequenotes, e, enquanto os adormecia, pensava no que tinha visto. Para quê tudo isto? Para onde nos levariam? Para um sítio melhor, ou não? Deixei-me adormecer sobre aquele assunto e, mais tarde quando despertei, verifiquei que Papoila, a mais pequenina, tinha desaparecido. Corri todas as ruas e jardins… Parecia impossível… Onde estaria ela? Lembrei-me, subitamente, daquele lugar. Corri desesperadamente até lá. E qual é o meu espanto… Estava mesmo ali, deitada sobre a relva, olhando atentamente aquele traidor pedaço de plástico e pensando que seria uma boa altura para me mostrar que já conseguia ir em busca de alimento sozinha. “Vê só, mãe!”. “Não!” gritei. Mas ela já estava preparada. Nada mais me restava a não ser tentar ser mais rápida do que ela e impedi-la de cair na “número 6”. Fui o mais veloz que pude e, quando não conseguia mais, saltei por cima dela. Parece que não caí à segunda, mas sim à terceira. O choro frágil e doloroso dos meus pequeninos estava a endoidecer-me! A verdade é que tenho pensado todos os dias neles e nesse momento… E não consigo disfarçar esta angústia nem controlar a minha sede de liberdade! E, nos momentos de maior desespero acabo por ser o alvo da minha raiva…
Qual é a probabilidade de no edifício nº6 da Rua dos Destinos existir uma armadilha número 6, na qual alguém cai e é transferido para um local onde será morto em apenas 6 segundos? Nenhuma, poderão pensar vocês. Eu acho ser enorme. Depois de uma semana de estudo e reflexão, concluo que fui vítima da trilogia satânica “666”. Não, não acredito no diabo… Acredito nos maus instintos dessa estranha espécie, esses tais seres implacáveis, macabros, insensíveis, egocêntricos, interesseiros e com uma mente demasiado fechada para a inteligência que afirmam ter… Todos os dias, horas, minutos e segundos diferentes animais caem nas suas mãos sujas. São atraídos para um determinado lugar, presos numa armadilha e mortos para fins puramente comerciais. Claro que para esses monstros está em primeiro lugar a produção de grandes casacos de pele ou de joias com marfim, por exemplo. Depois, e se houver disponibilidade, pensam em nós e, por vezes, com um bocadinho de sorte, chegam a arrepender-se de todos estes desumanos atos. Mas que adianta?
E estas foram as últimas palavras de uma gata. Já não consigo suportar mais esta espera, que me rouba a vida pedacinho a pedacinho. “Matem-me de uma vez!”, penso.
“Ver o sol aos quadradinhos” não é nada agradável… Ainda bem que chegou a minha vez. Será o fim do número 666? Infelizmente, é apenas o meu.

Ana Rita Carvalho, 11º 3

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