De volta à vida

terceiraA Ana Rita Norinho revela, mais uma vez, e, de novo muito bem, o seu gosto pelas histórias em que triunfa a alegre força de querer viver.

 

Deram-me 48 horas de vida há precisamente 11 meses e ainda aqui estou, em plena recuperação, balançando entre a casa e o hospital. Eu sei que os médicos são seres humanos, mas que intenção têm ao transmitirem aos progenitores de uma doente cerebral que daqui a dois dias irá morrer? O que eu retiro desta informação é “Tratem do funeral dela, pois será realizado dentro de algumas horas.”. Ou então é para que fiquem ansiosos e contem os segundos para acabar o meu prazo de vida na Terra.
Fui uma filha muito desejada. Ao fim da terceira gravidez, finalmente, os meus pais conseguiram ter nos seus braços uma bebé realmente deles. Daí, o número três passar a ser, para eles, o número de sorte. Sorte ou azar, mas isso explicar-vos-ei mais adiante. Deram-me o nome Leonor porque, segundo eles, é significado de luz e amor. Tretas! Não acredito em nada disso. Ontem, um enfermeiro muito jeitoso, aqui do hospital, disse que eu era muito bonita. C-O-R-E-I! Ninguém tem a noção. No entanto, depois de me elogiar, disse que eu transmitia muita calma e acrescentou que tinha cara de Leonor. Mas os nomes identificam-se pelo aspeto físico? Das coisas mais ridículas que já ouvi. Eu sei que foi dito com boa intenção. E vindo daquele “giraço” ainda gostei mais, mas não faz sentido absolutamente nenhum!
Como já referi, por razões óbvias, o número três é o favorito dos meus pais. Relembro: foi à terceira tentativa que conseguiram ter uma filha. No entanto, também foi no dia 3 de novembro que descobriram que eu tinha um tumor cerebral. Por outro lado, a 3 de janeiro, acordei do coma e, nesse mesmo dia, eles souberam que iriam conseguir adotar uma criança. Têm noção do “mega festão” que aqui houve, não têm? Ainda estava um pouco aparvalhada, um pouco a leste, mas tudo à minha volta transmitia felicidade. Não me chamasse eu Leonor, não é?
Tenho 16 anos e passo a minha vida a tirar fotografias. Até quando fiquei careca, momento em que todas choram e eu achava que estava super-gira. Lembro-me, como se fosse hoje, quando tive que cortar o cabelo pelos ombros. Nesse dia chorei, chorei e chorei. Mas depois passou-me e só queria que o cabelo caísse de vez para depois crescer direitinho e, quem sabe, todo encaracolado de novo.
Desde que tudo começou, o Francisco acompanhou-me sempre. Para quem não sabe, andámos juntos no infantário e, como somos vizinhos, sempre fomos muito próximos. Acho que foi o facto de passarmos todo o tempo juntos que fez com que nos aproximássemos e, pronto, já sabem como acabou. Namorámos há cerca de um ano e, segundo os meus pais, ele visitou-me sempre, mesmo estando em coma. Todos os dias, às 19 horas e 15 minutos, lá entrava aquele rapaz, por quem me apaixonei e continuo a apaixonar-me todos os dias, de guitarra às costas. Dava um beijo à minha mãe e outro a mim, na testa. Sentava-se e cantava sempre a música com a qual me pediu em namoro, “ I won’t give up” E, tal como se diz, ele nunca desistiu de mim nem de nós e hoje, graças a isso, temos uma relação forte e estável.
Os meus pais adoram-no e dizem que ele foi o melhor que me podia ter acontecido. Tratam-no como um filho, não fossem os pais dele os melhores amigos dos meus. Gosto dele, gosto muito dele. Tem sido crucial na minha sobrevivência. Aposto que já estão todos revoltados, dizendo que um rapaz nunca é a vida de nenhuma rapariga e nenhum merece este pódio. Mas não foi por acaso que, quando eu acordei, ele estava ao meu lado a cantar. Recordo-me desse momento. Lembro-me de começar a tentar acompanhá-lo a cantar e de o ouvir a chamar por toda a gente porque eu tinha aberto os olhos e, finalmente, voltava a estar lúcida. Ele agarrou-se a mim e besuntou-me toda. Sorri, sorriso esse que lhes encheu o coração.
Tenho os melhores comigo. Graças a eles, a minha luta está a chegar ao fim e, daqui a nada, vou poder dizer “Eu venci!”. Quando chegar esse momento, vou poder finalmente respirar de alívio, contra todas as expectativas, visto que, tal como referi no início, eu tinha 48 horas de vida e já se passaram 11 meses.

Este texto fará parte do prefácio do livro que a minha mãe decidiu escrever, enquanto eu estava em coma. Será publicado dentro de dias e ela fez questão que fosse eu a escrever esta parte do livro. Sinceramente, ainda não tive coragem para ler o que lá está escrito, mas espero, um dia, ganhá-la.
E, para terminar, nunca desistam dos vossos sonhos e lutem. Só é possível se acreditarem! E os números, neste caso, não enganam!

Ana Rita Norinho, 11º 3

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