Vinte e Sete

27A Sofia, do 11º1, continua a revelar a sua preocupação por temas ligados
ao amor, à maternidade, aos afetos…
Também gostei do fim desta história – para mim, belo e inesperado.

Números! A vida está cheia de números. O número do cartão de cidadão, o número da segurança social, o número da cama do hospital em que nascemos… No entanto, não é sobre nenhum destes números que vos escrevo. Hoje escrevo-vos sobre um dos números com mais significado para mim. Esse número é o 27. Eu sei o que estão a pensar: O que tem esse número de especial? Eu conto-vos. Vocês só precisam de ter paciência para ouvir.
O número 27 tem mais do que um sentido para mim, mas todos eles estão ligados ao meu primeiro filho. Quando se fala de uma coisa tão importante como o dom da vida, as pessoas têm tendência para pensarem que foi um acontecimento planeado. No meu caso não foi. Eu tinha 15, ia fazer 16 anos, quando descobri que estava grávida do meu namorado. Medo? Supostamente era o que eu deveria sentir quando soube. Medo de contar aos meus pais. Medo de criar uma criança. Medo da responsabilidade que é dar um novo ser ao mundo. Medo da maior e mais gratificante tarefa que já existiu – ser mãe. Contudo, não foi isso que eu senti. Eu experimentei a maior alegria da minha vida quando soube. Como poderia sentir algo diferente do que verdadeira e pura alegria? Eu fui criada a acreditar no poder de Deus, mas nunca o percebi, até ganhar o dom da vida. Eu estava tão feliz que não pensei no modo como a minha vida ia mudar, nem poderia sequer imaginar o que traria para mim o futuro. Contar aos meus pais foi mais fácil do que imaginei. Eles apoiaram-me durante todo o processo, mesmo quando abandonei a escola aos oito meses de gravidez. O meu namorado, Rodrigo, foi comigo a todas as consultas e depois do bebé nascer, iríamos casar e morar juntos. E, assim foi.
Vivemos felizes durante seis anos.
Mas um dia tudo mudou. Nesse dia comemorava-se o sexto aniversário do meu pequeno anjo, Francisco.
27 de agosto de 2009.
É engraçado como a memória funciona. Posso não me lembrar do que comi na semana passada, mas recordo-me de todos os detalhes vividos naquele dia.
Era uma bela tarde de verão, cheia de sol, e estávamos a dar uma festa para o Francisco na casa dos meus pais. Tudo estava perfeito, até ao momento em que vi a minha vida a esvair-se toda diante dos meus olhos. Medo? Um medo aterrorizante foi o que me assolou, quando o Francisco desmaiou diante mim. O meu pai ligou para o 112, que chegou rapidamente.
Passámos toda a noite no hospital. Eram seis horas da manhã, quando o médico nos veio informar sobre os resultados dos exames feitos. Cancro. A palavra do grande C. Leucemia linfoblástica aguda foi o que disseram. Pelos vistos, 85% dos casos de LLA, por todo o mundo, ocorrem em crianças, o que representa uma taxa de incidência anual de 2 em cada 100.000 crianças. O médico continuou a explicar em que é que consistia a doença, mas eu não conseguia pensar em nada além de ver o meu menino. Interrompi o doutor, enquanto ele dizia que a taxa de sobrevivência em crianças era acima dos 80%. Pedi para ver o Francisco. Quando cheguei ao quarto, não aguentei e chorei agarrada ao anjo que, no mundo, significava tudo para mim.
O meu pequeno homem foi forte enquanto ouviu o médico a dizer-lhe que os próximos tempos iriam ser passados no hospital. Foi-nos explicado que o tratamento iria ser dividido em três fases: indução, consolidação e manutenção.
Os meses seguintes foram muito difíceis e a tensão foi-se acumulando entre mim e o Rodrigo. Nós só falávamos um com o outro sobre o Francisco; de resto, parecíamos estranhos.
No dia 27 de março de 2010, estávamos na sala de espera do hospital quando sobre nós se fez luz. Era como se, de repente, a nossa cabeça percebesse o que o nosso coração já sabia há algum tempo: não nos amávamos.
Decidimos então divorciar-nos depois de falar com o Francisco. Apesar de, aos olhos dos outros, ter parecido egoísta, na verdade, foi a melhor decisão que poderíamos ter tomado. O ambiente, quando estávamos na mesma divisão, já não era opressivo, constrangedor, mas sim o mais leve possível, tendo em conta as circunstâncias.
Era agosto e, depois de tantos meses sem falar com os psicólogos, resolvi marcar uma consulta.
Fazia um ano desde que a minha vida tinha passado a concentrar-se num hospital. O número voltou a assinalar presença, quando a consulta foi marcada para o dia 27 de agosto. Eu estava nervosa e não sabia o que esperar quando entrasse no consultório. O psicólogo chamava-se Bernardo e odiei-o, pois ele foi a primeira pessoa que me conseguiu fazer falar sobre o que eu tinha vindo a passar. Apesar disso, continuei a ir às consultas que passaram a ser semanais.
Passara um ano e meio desde o fatídico dia de agosto, quando recebi boas notícias sobre o Francisco. Dia 27 de fevereiro de 2011, pelas nove horas, o médico informou que o cancro tinha entrado em remissão.
Por fim, o número 27 tinha voltado a ser um número que me trazia felicidade. O 27, para mim, representa o dia de nascimento do Francisco, o dia em que ele adoeceu, o dia em que soubemos que ele recuperou, o dia da decisão do divórcio e o dia em que vos escrevo. Hoje.
Hoje, é o dia do meu segundo casamento e o noivo chama-se Bernardo.

Sofia Fonseca, 11º 1

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