Retomemos os belos “Contos com números dentro”

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O Alexandre Vieira, do 11º 1,
retoma também uma personagem – Lúcia – que,
tal como ele, revela grande curiosidade e inteligência.

Tempo de regressar

Lúcia, apaixonada pela leitura, é uma rapariga curiosa e inteligente. Desde há muito tempo, rege a sua vida segundo uma regra simples: sempre que pega num puzzle, não consegue voltar a pousá-lo, a menos que esteja resolvido. Por vezes, solucioná-lo é difícil, ela própria não o nega, mas há algo dentro dela que a obriga a desafiar os seus limites e motiva-a a explorar o desconhecido.
Um dia, enquanto arrumava o seu quarto, deparou-se com um livro que lhe era bastante familiar. Capa vermelha de couro, letras rutilantes e douradas, cheiro a antigo, folhas amarelecidas e finas, quase transparentes, e… manchadas? É verdade! Aquele manuscrito velho descobriu-o na biblioteca da sua cidade, quando era mais nova. Pegou nele e apertou-o contra o peito, sentindo o seu perfume nostálgico e a sua textura. Enfim, uma aventura inteira em 836 páginas. Tomou, então, a decisão de o reler e permitir-se voltar a vivenciar momentos que já há muito passaram; afinal, esta é a beleza das histórias: são imutáveis e resistem ao tempo. Passou a mão pela capa rugosa e, pondo o seu dedo por baixo da aba, abriu-o e começou a navegar por entre as suas páginas, tal qual um Descobridor.
Todavia, dez minutos passados, apercebeu-se de que o enredo não estava exatamente igual. Embora não estivesse irreconhecível, alguns detalhes tinham, claramente, sido transformados. Mas isso não a desmotivou e, sendo a ávida e crítica leitora que é e sempre foi, continuou a folheá-lo com a expectativa de encontrar uma nova história que a deslumbrasse.
De facto, a nova narrativa tinha-a surpreendido, tendo até sido capaz de lhe pôr um sorriso na cara. Mas, ao virar para a página 419, viu que havia algo de muito estranho com ela: estava preenchida com os números 4 e 0, organizados de modo a formar uma ampulheta. Muito reticente, e com a esperança de que aquilo fosse algum erro de impressão estranhamente peculiar, avançou mais algumas folhas apenas para encontrá-las vazias e todas numeradas com 40. Nunca antes ela se tinha sentido tão assoberbada, confusa e, principalmente, traída. Nada disto fazia sentido, nada era explicável, nada daquilo era possível. Mas se não o era, como é que aconteceu? Naquele momento, o corpo de Lúcia cedeu à ira e, num ato de desespero, lançou o livro contra a porta do seu quarto e deitou-se na sua cama a ponderar que piada de mau gosto vinha a ser esta. Desolada, apetecia-lhe nem sequer se atrever a descobrir a razão pela qual tudo aquilo estava a acontecer, mas… afinal de contas, nada daquilo passava de um enigma. E o que é que ela lhes faz, sempre e impreterivelmente? Resolve-os. Então, recompôs-se, levantou-se da cama, deixou de sentir pena dela própria e pôs mãos à obra.
Muitas horas de trabalho depois, a única informação acerca do livro que encontrou foram as iniciais do autor – N e O –, mas esse facto não era animador e pouco lhe dizia acerca deste mistério. Enquanto olhava o vazio, a pensar, teve uma ideia fantástica. A ampulheta estava desenhada com números, portanto, se calhar, a próxima pista podia ter a ver com eles, nomeadamente o total de páginas, o da página em que encontrou o esboço e o 40. Mas o que teria isso a ver com N e O?
Para se esclarecer, juntou todos os dados num termo de pesquisa e introduziu-o num motor de busca online, apercebendo-se de que eles representavam as coordenadas geográficas da cidade do Porto – 41° 9′ N, 8° 36′ 40″ O –, pelo que o lugar, que ela deveria procurar, encontrava-se naquela localidade. Agora, bastava apenas saber o sítio exato, tendo investigado sobre o código postal 4040-404, visto que 4 e 0 eram os números que se repetiam na ilustração. Viu que aqueles correspondiam a uma pequena relojoaria na baixa da cidade. Num ápice, Lúcia calçou as sapatilhas e partiu à descoberta.
Chegando lá, avistou um senhor velho, com barbas cinzentas, mas bastante ativo para alguém da sua idade. Sem qualquer receio, aproximou-se dele e bombardeou-o com questões acerca do livro e dos números, até que, interrompendo-a, o lojista deslocou-se até uma prateleira, tomou uma ampulheta, estendeu-lha sorrindo e disse: “Boa sorte!” Pasmada, aceitou a oferta, agradeceu-lhe, e correu até casa.
Mal lá chegou, pousou-a na mesa e, muito concentrada, olhou-a de cima a baixo. Era pequena, o pó estava de tal maneira incrustado no vidro que quase parecia baço e dois aros dourados ornamentavam as suas partes superior e inferior. Apesar disso, na face de baixo, estava gravada uma mensagem: “Depressa vai o tempo que depressa vem.” “Que desilusão”, suspirou, enquanto um véu de tristeza lhe cobria o rosto. Depois de tanto esforço, a única recompensa que obteve foi apenas um objeto rústico e anacrónico de medição de tempo. “Pelo menos resolvi o mistério…”, tentava consolar-se, enquanto, languidamente, brincava com o objeto.
Quando o pousou, com o bolbo com a areia virado para cima, o mineral começou a cair e, simultaneamente, Lúcia foi transportada para as suas memórias de infância. Ela estava tão feliz e jubilosa, maravilhada por, afinal, ter sido gratificada com tamanha bonificação. De repente, tudo parou e voltou à realidade, mal o último grão de areia aterrou. Todavia, não ficou triste, nem nostálgica, mas bastante orgulhosa de si mesma e profundamente agradecida. Assim, independentemente das adversidades, há que dar tempo ao tempo.

Alexandre Vieira, 11º 1

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