No dia de aniversário de Fernando Pessoa

Liberdade

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
Sol doira
Sem literatura
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como o tempo não tem pressa…Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D.Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças…
Mas o melhor do mundo são as crianças,

Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

Mais que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca…

Fernando Pessoa, in “Cancioneiro”

Fernando Pessoa nasceu no dia 13 de junho de 1888

e faleceu em 1935 (um ano após a publicação de Mensagem)
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A língua e os números – a Daniela une-os de forma excelente

Dani 2

Uma metáfora de números

Números. Vivemos num Universo repleto deles. Mas, afinal o Universo não é infinito? Será que pode estar repleto? Eis uma boa questão! É com estes paradoxos que o meu encanto pelos números se assemelha a um gigante. Mergulho na minha praia por horas. É a melhor metáfora que encontro para descrever o tempo que gasto com algoritmos. Perco-me e reencontro-me, deparo-me com fórmulas, teoremas, figuras geométricas, vetores e ainda mais temas, todos eles com desafiantes nomes. Desafiantes. Este foi o adjetivo que me pareceu mais adequado para caracterizar os tais “nomes”.
Por falar em tempo… Na maioria das vezes, falamos nele como algo absoluto, algo que é certo, algo que não nos oferece margem de dúvida. Facilmente olhamos para um relógio e usamos uma frase do tipo declarativo para dizer: “São oito horas e vinte e cinco minutos”.
Todavia, vou agora desafiar-vos com algo que abre as portas ao meu fascínio. Apesar de ainda haver discórdia no que diz respeito a este assunto, razão pela qual não passa de uma simples tese verosímil, eu acredito que o tempo não existe, não é real, não passa de uma mera ilusão.
Os números falam comigo; não vos reprimo se acharem que estou simplesmente a utilizar uma personificação. Mas eles dizem-me o que é viver, ensinam-me o que é a verdadeira alegria e permitem que eu saiba o que é o verdadeiro encanto, porque quando pego num conjunto de números sob os quais aparece um enunciado (um problema, dizem as pessoas… conhecendo eu o significado da palavra “problema”, que várias vezes li no dicionário, nunca percebi o porquê de atribuírem aquele nome a algo tão belo), viajo no tempo.
As fórmulas, que se resumem a um conjunto de operações com números, permitem-nos ter alguma noção do que é uma realidade a duas e a quatro dimensões, quando vivemos num mundo a três dimensões (será que o ser humano possui assim tanto conhecimento?). Este facto já me fez refletir. Já pensei várias vezes se não pertencemos apenas a mais um Universo entre um bom conjunto deles. “Eureka!”. Encontrei novamente algo que pode ser caracterizado por números; os conjuntos, conjuntos matemáticos (com tanto entusiasmo até acabei por usar uma repetição!).
Os algarismos são como notas musicais que se apoderam do nosso pensamento; depressa se organizam de uma forma tão peculiar que acabam por constituir uma pauta e, consequentemente, dão-nos o prazer de ouvir uma bonita melodia.
Com os números, podemos escrever um poema:

Um dia pedi ao quatro,
para me ensinar esquema rimático;
ele disse para eu pedir ao três
que me ensinasse a falar português.

Aqui está o poema no qual eu sou o sujeito poético. Sem números, não seria capaz de dizer que o mesmo é composto por uma estrofe de quatro versos.
Lembro-me agora. Um dia estava eu a passear pelo jardim quando ouvi um grupo de rapazes a falar alto, ou mesmo a berrar… mas adiante, não é isso que interessa discutir agora. Curiosa, decidi aproximar-me, discretamente, para ver o que ali se passava. No meio desses pássaros acabados de sair do ninho, vi um senhor, que notoriamente se distinguia no meio de tão jovens rapazes. Inicialmente, não consegui perceber o que se passava. Ao observar aquele cenário, sabia que havia alegria naquele lugar. No entanto, o que eu ouvia contrastava com aquilo que os meus olhos viam, pois só escutava os rapazes a chamarem “seis” ao senhor. “Seis” para aqui, “seis” para ali, “seis” para acolá. “Que bizarro!”, pensei. Estariam eles a troçar da pessoa que encarnava o papel de ancião naquele grupo?
Mais tarde vim a descobrir que não. Tive o prazer de conhecer o senhor e confrontei-o com a situação que havia presenciado. Ele explicou-me que era um orgulho quando lhe chamavam “Seis”, visto que esse tinha sido o número de vezes que havia saltado de paraquedas.
Lá embarquei eu numa nova aventura. Devo confessar que os meus níveis de adrenalina subiram abruptamente quando, irresponsavelmente, me atirei pela porta do avião fora, como se fosse um pássaro e tivesse asas para voar. Mas fechei os olhos e saboreei, tal como se fosse uma deliciosa guloseima, aquele momento. Foi, sem dúvida, uma das minhas melhores experiências, que não seria vivida se aquele número, o seis, não tivesse despertado a minha atenção.
Para mim, os números são como uma história inacabada, que não me atrevo a contar. Que mais bela comparação poderia eu usar para concluir a minha história?

Daniela Figueiredo, 11º 3

Dani