A autora Daniela Castro, 11º 3, conta-nos um caso muito especial

livO que nos torna especiais

Existem histórias que nos cativam pelas mais variadas razões. Talvez por nos identificarmos com elas, por acharmos impossível que aconteçam ou pelo simples facto de sermos coagidos a participar nelas. No meu caso, eu vivi-a.
Decorria o ano de 1998 quando eu nasci. A minha mãe diz que estava um dia soalheiro sem uma única nuvem no céu. A gravidez tinha corrido normalmente, todas as consultas indicavam que seria uma bebé completamente saudável, dado que nunca encontraram qualquer deformação. Contudo, quando os médicos pediatras me examinaram, logo após o meu nascimento, repararam que algo não estava bem. Foi-me diagnosticada uma patologia rara. Sim, eu sou portadora de uma deformidade em que o único tratamento é uma operação cirúrgica.
Nasci com o que é chamado de Polimelia, possuo 3 braços, encontrando-se um deles junto à espinal medula. Esta é uma doença que afeta um doente em cada milhão. Sou das únicas portadoras desta má deformação em Portugal. Apenas me davam uma semana de vida, no entanto, já passaram 16 anos. Esse foi o tempo que passei entre o hospital e a minha casa. Os meus pais nunca desistiram de descobrir uma cura para esta minha condição, a que existe é a operação, mas os médicos dizem que é demasiado arriscada e ninguém quer correr esse risco.
A minha vida diária nunca foi fácil. Na escola primária nunca fui aceite, as crianças quando querem podem ser bastante cruéis. Não queriam brincar comigo por eu ser diferente, por isso limitava-me a ficar sentada na sala de aula a ler livros, o que despertou o meu amor pela escrita. Com o passar do tempo, fui-me adaptando e fui aprendendo a lidar com as situações. Com a entrada na adolescência, a ideia de me sentir bonita sempre existiu e, como qualquer outra rapariga, queria impressionar “o tal rapaz”. Só que não podia comprar a roupa nas lojas ditas normais; não existe roupa para pessoas com 3 braços. Eu também não iria vestir uma camisola com três mangas, o que eu queria era esconder o meu membro extra. Com a ajuda de umas colegas da minha mãe, que tinham algum jeito para a costura, passei a utilizar camisolas que disfarçavam o braço nas costas com pequenos adereços ou com outras aplicações que afastassem as atenções dessa área.
Hoje, tenho 16 anos e a maior parte dos obstáculos já foram superados. A semana passada fui a uma consulta com o médico que me segue desde recém-nascida, para fazer um exame de forma a ver o estado da doença. Examinou-me e no fim disse que tinha uma surpresa, haviam descoberto uma técnica que poderia ser aplicada ao meu caso e, se fosse bem sucedida, poder-me-iam retirar o braço parasita, como lhe chamam. Os meus pais ficaram radiantes e eu também fiz transparecer esse sentimento, mas, por dentro, o que eu sentia era uma espécie de melancolia. Já se tinham passado tantos anos que acabara por me habituar ao facto de não ser igual às outras pessoas.
Passaram-se alguns dias e ainda ninguém tinha tocado nesse assunto, mas como no dia seguinte teria uma consulta no médico para decidir se iriamos ou não para a frente com a ideia da cirurgia, eu e os meus pais acabámos por conversar. Perguntaram-me como me sentia em relação ao facto de terem descoberto uma técnica que poderia ser a solução para a minha doença; eu respondi que estava contente pela medicina ter feito uma tão grande descoberta, contudo não queria ser sujeita à intervenção cirúrgica. Os meus pais ficaram chocados com a minha resposta e não entenderam a razão de agora, passado tanto tempo à procura de uma solução, não querer tornar-me numa “pessoa normal”. Eu acrescentei que não me queria tornar numa pessoa diferente, queria continuar a ser a rapariga que sempre fora, podia até ter um membro a mais, porém isso não me tornara nem mais nem menos humana. Aprendi a orgulhar-me da pessoa em que me tornei: todos as adversidades transformaram-me para melhor, moldaram a minha personalidade e fizeram com que olhasse em volta e admirasse o interior de quem me rodeia em vez do exterior.
Quando terminei, vi correr da cara da minha mãe uma lágrima. Ela entendeu o quanto o facto de eu ter nascido diferente me tornou numa rapariga melhor e capaz de ajudar os outros.
No dia seguinte, cheguei ao hospital e expliquei ao médico as razões pelas quais não queria fazer a operação. Pedi, inclusive, se me poderia recomendar algum centro de crianças com a doença de Polimelia. Queria dar o meu contributo e ajudar crianças e adolescentes que, tal como eu, são especiais, cada um à sua maneira.
Foi então que descobri que as diferenças que existem entre os seres humanos tornam-nos únicos e especiais, cada um com a capacidade de conduzir à mudança.
No centro, conheci crianças com diferentes graus de Polimelia, bem mais graves do que o meu. No entanto, após a saída o que nos cativa e o que recordamos não é o facto de terem membros em número par ou ímpar, mas sim o resultado que essa característica tem no sorriso e na alegria que estes meninos e meninas deixam transparecer. Isso tornou-me numa pessoa mais feliz.

Daniela Castro, 11º 3

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