Histórias com números dentro

livro 3
livro 2A partir de hoje, vamos partilhar algumas das histórias escritas pelos alunos do 11º ano – que foram premiadas ou distinguidas para constarem da coletânea Histórias com números dentro.

Como a autorização foi dada pelos autores, aqui vai a primeira – que hoje foi lida na aula pela Cate – e muito bem, por sinal.

Os autores da história são Adriano Santos e Nuno Dinis, do 11º 3. O título do conto é “Vida de Gato”

Vejamos, então, como os nossos dois contistas abordaram essa vida felina, ligando-a aos números, uma vez que o tema do concurso foi “Um história com números dentro”.

 ANVida de gato

Era uma manhã chuvosa e cinzenta, contrariando a estação que decorria. Andava na rua, alto e esguio, careca, com uma tatuagem na nuca. Esta era apenas um número, o sete.
Entrou no seu carro: cor preta, vidros escuros, muito discreto. Ligou o motor e arrancou em direção a um bosque que se encontrava a mais ou menos 3 quilómetros de sua casa. Aí, parou o carro e certificou-se que ninguém estava à sua volta. Depois disto, abriu a mala, arregaçou as mangas, e de lá retirou um saco preto, cujo interior aparentava ter um corpo, e uma pá. Arrastou o saco pelo caminho de terra enlameado até um descampado, onde cavou um buraco no qual enterrou o tal saco.
Entretanto, a caminho do carro, ouviu um inesperado miar. Este vinha de uma caixa de cartão fechada, que se encontrava a cerca de dez metros do carro, junto a uma árvore. Abriu a caixa e lá dentro viu sete pequenos gatos pretos. Contrariando a sua frieza natural, levou os bichos consigo para cuidar deles.
Já tinham passado sete dias desde esse episódio, quando, pelas oito e trinta da manhã, o toque do seu telefone interrompeu o silêncio do quarto: “Agente 7, temos um novo alvo”. Esta voz ditou uma morada e rapidamente caracterizou fisicamente um indivíduo do sexo masculino. Sem mais tempo para perguntas, desligou a chamada. Ele já sabia qual era o seu trabalho e, enquanto se vestia, resmungou: “Mais um dia no serviço”. Antes de sair, alimentou os seus sete novos companheiros e fez-se à estrada.
Algumas horas mais tarde, regressou a casa numa grande inquietação. Dirigiu-se imediatamente ao quarto de banho para lavar energicamente a mancha vermelha que ficara entranhada na sua camisa branca. No fim, já mais calmo, dirigiu-se até ao sótão onde mantivera os gatos e verificou que um deles estava morto, sem nenhuma razão aparente. Nesse mesmo instante, uma dor incrivelmente forte atingiu-lhe a zona temporal deixando-o pálido. Foi até à sua cama e deitou-se com o objetivo de descansar um pouco, pensando que o que tinha acontecido fora apenas resultado do cansaço. Adormeceu.
Foi acordado, na manhã seguinte, pelo toque do seu novo telemóvel, uma vez que o outro fora destruído para impossibilitar a sua localização. A mesma voz repetiu exatamente o discurso anterior, mudando apenas a morada e o alvo.
Depois desta chamada, ele repetiu a rotina do dia anterior e, impressionantemente, depois de chegar a casa, deu conta que mais um dos seus gatos tinha morrido.
Sentiu outra vez uma dor muito forte na cabeça. Desta vez, ficou preocupado e, sem mais demora, foi até ao hospital da cidade. Lá foi-lhe dito que teria pouco tempo de vida, pois tinha-lhe sido diagnosticado um tumor cerebral maligno.
À saída do hospital, ouviu-se um novo toque de telemóvel e a mesma voz voltou a repetir-se. Mais uma vez, ele teve de realizar o seu trabalho. Chegou a casa, desta vez mais calmo, mas a sua dor de cabeça permanecia. Dirigiu-se novamente à divisão da casa onde estavam os gatos e, com grande surpresa, deparou-se com mais um gato falecido.
Passada uma semana, as dores de cabeça continuavam a atormentá-lo, mas não o impossibilitavam de prosseguir com o seu trabalho. Dessa vez algo foi diferente: em vez de apenas um alvo, eram três. O serviço tinha sido mais complicado, mas ele voltara a casa calmo e à mesma hora de sempre, sete da tarde. Sentindo-se tão cansado, dirigiu-se diretamente para a cama sem passar, como era costume, pelo sótão para verificar se estava tudo bem com os seus gatos.
Na manhã seguinte, foi acordado pelo barulho irritante do seu despertador. Tinha uma consulta marcada no hospital local para fazer um raio-x. O resultado deste era bastante revelador: aparecia um tumor bem visível com 7 milímetros de diâmetro. De volta a casa, nada abalado com a notícia, foi serenamente até ao sótão para alimentar os gatos e foi então que reparou que apenas um permanecia vivo. Mais três gatos tinham morrido! Foi aí que se apercebeu que, sempre que executava uma vítima, um dos seus gatos perdia a vida.
Passados três dias, acordou com um telefonema a anunciar o seu último assassinato: “Parabéns, agente 7, conseguiu fazer o pretendido, mas, antes de se reformar, temos um último trabalho para si!”.
Terminado mais este contrato, entrou em casa ansiosamente e, para sua surpresa, ouviu o miar do seu último gato. A sua felicidade era inexplicável.
Dirigiu-se rapidamente ao sótão mas, assim que lá chegou, sentiu novamente uma intensa dor na cabeça. Porém, desta vez algo era diferente: a sua visão estava a escurecer e as suas pernas fraquejavam… Dado isto, não resistiu e caiu.

Adriano Santos e Nuno Dinis, 11º 3

Anúncios

Belas histórias com talentos dentro!

co

Desde que pus o último post, nunca mais dei notícias, porque fazer parte de uma equipa que está a elaborar um livro dá trabalho. Mas é/foi tão bom!

Para além disso, gostava também de poder mostrar os resultados do trabalho que passa por várias fases:

– Escrita do conto pelos alunos;
– Revisão dos contos pelos professores;
– Nova correção feita pelos alunos;
– Envio dos contos, separados por escalões, para o júri, pela Oficina de Língua:
– Seleção dos contos pelo júri;
– Elaboração das ilustrações nas aulas de Educação Visual;
– Escolha das ilustrações (capa e separadores) pela OL e BE;
– Nova revisão (ortografia, pontuação, acentuação…) feita pela Oficina da Língua;
. Trabalho de design da capa e separadores
– Impressão do texto pela Biblioteca Escolar;
– Nova revisão de todos os contos, dos nomes dos autores, etc.

E, finalmente, chegam uns montinhos de livros. Que abrimos. Que olhamos. Que nos levam a sorrir. Que nos fazem acreditar na leitura e na escrita. Que nos ajudam a reconhecer mais talentos na Comunidade Educativa.

E o melhor de tudo é observar a alegria nos rostos dos alunos – e dos professores – por verem que valeu a pena o trabalho!
E o livro pode ser partilhado com a família, com os amigos. Será uma das memórias felizes da ESG. Será um estímulo para outras leituras e escritas. Será um motivo para cada um acreditar, positivamente, em si próprio e nos outros.

Parabéns, queridos alunos, ou melhor, queridos contistas (sem esquecer os ilustradores) – participantes ou vencedores. Vocês mostraram que não são apenas números, mas que também veem nos números motivos para belas histórias.

Um beijinho para todos – e também para os que tinham ideias, mas (ainda) não as escreveram.

Boas notícias com bons números dentro!

“Uma história com números dentro”

Concurso – “Vamos escrever um conto”

Concorrentes premiados:

Conto
2º escalão (7º e 8º anos):
1º prémio – Joana Couto Pinto, 8º 3, “A imperfeição que é ser-se perfeito”.
2º prémio – Ana Rita Moura, 8º 3, “Histórias de um número”.
Conto também selecionado para o livro:
Ana Mourão, 8º 1 – “A princesa Humberta e os números”.

3º escalão (9º e 10º anos):
1º prémio – Rafael Silva Leitão, 10º 4 – “Por que se diz que os gatos têm sete vidas” .
2º prémio ex-aequo – Diana Nunes, 10º 5 – ” O 13″.
Mariana Dinis e Carolina Hilário, 10º 9 – “Isto é um assalto”.
Menção Honrosa ex-aequo – Diogo Barbosa, 10º 3 – “O menino zero”.
Carla Ribeiro, 10º 5 – ” A combinação”.
Contos também selecionados para o livro:
Diana Cunha, 10º 2 – “Uma estrela entre milhões”.
Carlos Castro, 10º 2 – ” Raiz quadrada”-
Bernardo Machado Lima, 10º 2 – “Em busca do fim interminável”.
Magda Pereira, 10º 3 – Zacarias, o curioso.
Paula Neves Cardoso, 10º 3 – “A triste solidão”.
Rita Marreiros, 10º 3 – ” Um novo Era uma vez…”.
Hugo Alexandre, 10º 4 – “Zero, quem é esse”?.
Marta Oliveira, 10º 8 – “Um conto alfanumérico”.
Tânia Pinto, 10º 9 – “Não sou um número qualquer”.
Catarina Dias, 10º 10 – “Destino”.

4º escalão (11º e 12º anos):
1º prémio – Ana Gomes e Ana França, 12º 1 – ” Um número desamparado”.
2º prémio ex-aequo – Mariana Cardoso, 12º 3 – “Dia dos números”.
– Sofia Fonseca, 11º 1 – “Vinte e sete”.
– Cláudia Moreira, 11º9 – A sociedade dos números.
– Ana Filipa Costa e Sandra Guimarães, 11º 9 – Destino condenado.
Menção Honrosa ex-aequo – Alexandre Vieira, 11º 1 – “É tempo de regressar”.
Adriano Santos e Nuno Dinis, 11º 3 – “Vida de gato”.
Ana Rita Norinho, 11º 3 – “De volta à vida”.
Daniela Figueiredo, 11º 3 – “Uma metáfora de números”.
Contos também selecionados para o livro:
Carla Alexandra Magalhães, 11º 1 – “Os números e o amor”.
Ana Rita Carvalho, 11º 3 – “Sou um número: 666”.
Ana Rita Gonçalves, 11º 3 – “Um só faz a diferença”.
Daniela Castro, 11º 3 – “O que nos torna especiais”.
Mariana Ferreira e Helena Gomes, 11º 3 – “21 sonhos azuis e brancos”.
Sofia Silva e Daniel Cardoso, 11º 3 – “Investigações com números dentro”.
Sofia Laranjeira, 11º 4 – “Dia de azar”.
Lara Soares, 11º 12 – “Uma aventura no Onze”.
Bruna Santos e Mara Alexandra, 12º 13 – “O primeiro lugar”.

5º escalão (professores, funcionários e encarregados de educação):
1º prémio – Pedro Sousa
2º prémio – Adelina Ferreira dos Santos

Ilustração
Capa
– Patrícia Rodrigues Barbosa, 9º4

Separadores/cortinas:
– Bernardo Júlio, 8º 2
-Leonor Florentino Soares, 8º 2
– Cristiana Isabel Almeida Gomes, 9º 1
– Helena Novais Queirós «, 9º 1
– Tânia Rodrigues , 9º 1

A todos os concorrentes – participantes e vencedores – os nossos parabéns!
A todos os professores, funcionários e encarregados de educação, que colaboraram nesta iniciativa de promoção da escrita, da leitura e da arte, os nossos agradecimentos.

A coletânea – Histórias com números dentro – será apresentada no dia 27 de maio 2015, às 21 h, na Biblioteca da ESG. Todos serão bem-vindos!

As dinamizadoras da Oficina de Língua da ESG,
Ana Catarino
Dolores Garrido
Glória Poças

O coordenador da Biblioteca Escolar,
João Carlos Brito

Cesário Verde – a sua obra deu um livro

De tarde

Naquele pic-nic de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!

O Livro de Cesário Verde

Monet

Toulouse-Lautrec

 

 

 

 

 

 

 

O Sentimento dum Ocidental

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinir de louças e talheres
Flamejam, ao jantar alguns hotéis da moda.

Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!

Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!

O Livro de Cesário Verde

MMonet

Monet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 Vaidosa

Dizem que tu és pura como um lírio
E mais fria e insensível que o granito,
E que eu que passo aí por favorito
Vivo louco de dor e de martírio.

Contam que tens um modo altivo e sério,
Que és muito desdenhosa e presumida,
E que o maior prazer da tua vida,
Seria acompanhar-me ao cemitério.

Chamam-te a bela imperatriz das fátuas,
A déspota, a fatal, o figurino,
E afirmam que és um molde alabastrino,
E não tens coração, como as estátuas.

E narram o cruel martirológio
Dos que são teus, ó corpo sem defeito,
E julgam que é monótono o teu peito
Como o bater cadente dum relógio.

Porém eu sei que tu, que como um ópio
Me matas, me desvairas e adormeces,
És tão loura e dourada como as messes

E possuis muito amor… muito amor-próprio.

O Livro de Cesário Verde

CA

 

 

 

 

 

Num bairro moderno

Dez horas da manhã; os transparentes
Matizam uma casa apalaçada;
Pelos jardins estancam-se as nascentes,
E fere a vista, com brancuras quentes,
A larga rua macadamizada.

Rez-de-chaussée repousam sossegados,
Abriram-se, nalguns, as persianas,
E dum ou doutro, em quartos estucados,
Ou entre a rama do papéis pintados,
Reluzem, num almoço, as porcelanas.

Como é saudável ter o seu conchego,
E a sua vida fácil! Eu descia,
Sem muita pressa, para o meu emprego,
Aonde agora quase sempre chego
Com as tonturas duma apoplexia.

E rota, pequenina, azafamada,
Notei de costas uma rapariga,
Que no xadrez marmóreo duma escada,
Como um retalho da horta aglomerada
Pousara, ajoelhando, a sua giga.

E eu, apesar do sol, examinei-a.
Pôs-se de pé, ressoam-lhe os tamancos;
E abre-se-lhe o algodão azul da meia,
Se ela se curva, esguelhada, feia,
E pendurando os seus bracinhos brancos.

Do patamar responde-lhe um criado:
“Se te convém, despacha; não converses.
Eu não dou mais.” È muito descansado,
Atira um cobre lívido, oxidado,
Que vem bater nas faces duns alperces.

Subitamente – que visão de artista! –
Se eu transformasse os simples vegetais,
À luz do Sol, o intenso colorista,
Num ser humano que se mova e exista
Cheio de belas proporções carnais?!

Bóiam aromas, fumos de cozinha;
Com o cabaz às costas, e vergando,
Sobem padeiros, claros de farinha;
E às portas, uma ou outra campainha
Toca, frenética, de vez em quando.

E eu recompunha, por anatomia,
Um novo corpo orgânico, ao bocados.
Achava os tons e as formas. Descobria
Uma cabeça numa melancia,
E nuns repolhos seios injetados.

As azeitonas, que nos dão o azeite,
Negras e unidas, entre verdes folhos,
São tranças dum cabelo que se ajeite;
E os nabos – ossos nus, da cor do leite,
E os cachos de uvas – os rosários de olhos.

Há colos, ombros, bocas, um semblante
Nas posições de certos frutos. E entre
As hortaliças, túmido, fragrante,
Como alguém que tudo aquilo jante,
Surge um melão, que lembrou um ventre.

E, como um feto, enfim, que se dilate,
Vi nos legumes carnes tentadoras,
Sangue na ginja vívida, escarlate,
Bons corações pulsando no tomate
E dedos hirtos, rubros, nas cenouras.

O Sol dourava o céu. E a regateira,
Como vendera a sua fresca alface
E dera o ramo de hortelã que cheira,
Voltando-se, gritou-me, prazenteira:
“Não passa mais ninguém!… Se me ajudasse?!…”

Eu acerquei-me dela, sem desprezo;
E, pelas duas asas a quebrar,
Nós levantamos todo aquele peso
Que ao chão de pedra resistia preso,
Com um enorme esforço muscular.

“Muito obrigada! Deus lhe dê saúde!”
E recebi, naquela despedida,
As forças, a alegria, a plenitude,
Que brotam dum excesso de virtude
Ou duma digestão desconhecida.

E enquanto sigo para o lado oposto,
E ao longe rodam umas carruagens,
A pobre, afasta-se, ao calor de agosto,
Descolorida nas maçãs do rosto,
E sem quadris na saia de ramagens.

Um pequerrucho rega a trepadeira
Duma janela azul; e, com o ralo
Do regador, parece que joeira
Ou que borrifa estrelas; e a poeira
Que eleva nuvens alvas a incensá-lo.

Chegam do gigo emanações sadias,
Ouço um canário – que infantil chilrada!
Lidam ménages entre as gelosias,
E o sol estende, pelas frontarias,
Seus raios de laranja destilada.

E pitoresca e audaz, na sua chita,
O peito erguido, os pulsos nas ilhargas,
Duma desgraça alegre que me incita,
Ela apregoa, magra, enfezadita,
As suas couves repolhudas, largas.

E, como as grossas pernas dum gigante,
Sem tronco, mas atléticas, inteiras,
Carregam sobre a pobre caminhante,
Sobre a verdura rústica, abundante,
Duas frugais abóboras carneiras.

O Livro de Cesário Verde

can

 

 

 

 

 

 

CV

Cesário Verde (1855-1886)

 

 
 
 
 
 

 

 

 Temas abordados por Cesário Verde:

  • Questão social
  • Repórter do quotidiano
  • Binómio cidade/campo
  • Vida artificial/vida natural
  • A mulher
  • A família
  • A força telúrica

 

O MODERNISMO

Tendo-se iniciado em Portugal em 1915, o Modernismo levaria sete anos para começar no Brasil; porém, o movimento modernista, num primeiro momento, apresentou, na literatura, certas características e atitudes que foram comuns aos dois países. Entre elas, destacam-se:

  • inconformismo político – espírito revolucionário;
  • irreverência, iconoclastia;
  • antiacademicismo, antitradicionalismo, antipassadismo, anticonformismo;
  • rejeição das normas estéticas consagradas;
  • proposta de inovações linguísticas:
  • versos livres;
  • aproximação entre poesia e prosa;
  • exploração de novos temas;
  • simultaneísmos, sínteses, fusões diversas;
  • uso da linguagem coloquial;
  • humor, ironia, o “poema-piada”;
  • incorporação do quotidiano;
  • o moderno como um valor em si mesmo

Fonte desta síntese: http://www.10emtudo.com.br/aula/ensino/caracteristicas_gerais_do_modernismo/nova concepção do mundo e do homem.