Aos meus (ex-)alunos do 12º 1 e 12º 3

Bom dia, meninos, ou Bom dia a todos – eram as saudações habituais.

Às vezes, não começava logo a aula porque havia mochilas ainda por abrir, conversas que continuavam mesmo que mais rápidas, nem todos estavam sentados, um ou outro tinha-se esquecido do manual, um ou outro pedia uma caneta, um ou outro vinha falar comigo pelas mais diversas razões…

E assim se passaram três anos. Chegaram à sala de aula ainda mais meninos, no décimo ano, e concluíram o 12º já quase adultos. Durante os três anos, houve paixões, ilusões, desilusões, meigas palavras olhadas e sorridentes, palavras frias em olhar desviado, sonhos partilhados, segredos incontidos …

Sonhos  estridentes de quem sempre ouviu elogios pela graça e beleza física; mais silenciosos de quem se habituou a sentir-se menos bafejado pela natureza; apenas pressentidos de quem tudo parecia guardar; de quem sorria muito mas que às vezes chegava ou partia de rosto fechado para a caixa das lágrimas não se abrir…

Ó professora, ando baralhada, não sei que curso hei de escolher. Ajude-me. Isto é muito complicado.

E a minha insistência: atenção, meninos, erros de pontuação, ortográficos ou de acentuação cada um desconta um ponto em exame e olhem que os erros sintáticos descontam dois pontos. E os argumentos têm de mostrar, de forma clara, que vocês têm consciência do mundo à vossa volta. Concentrem-se, organizem o vosso tempo e estudem mostrando o que valem…

Tantas e diferentes reações fui ouvindo a propósito, por exemplo, das obras estudadas: “Adorei o Memorial do Convento. É mesmo fixe. Li-o em quatro dias”. “Nunca li um livro. Eu tenho os resumos”. “Afinal, estou a perceber e a gostar”. “Demora muito tempo a ler e tenho outras coisas para estudar”. “Ainda não comecei, mas você vai ver que vou ler” (Não digas você!! Como deves dizer??)

Meninos, os exames estão à porta, não se preocupem tanto com a Festa de Finalistas.

E chegou a noite tão esperada do baile de Finalistas. E, ao fim da tarde, iam chegando à quinta como príncipes e princesas de contos de encantar. Obrigada, foi a minha avó que fez o meu vestido. Era da minha mãe; só o mandei arranjar. Tive de comprar outro, porque o que eu tinha encomendado não chegou a tempo. Obrigada, também gosto muito e as pulseiras foram feitas pela minha mãe. Tenho os pés a doer, mas não quero tirar os sapatos…

E logo a seguir os exames. Não se preocupe, professora, vou tirar vinte.

E pouco tempo depois: oh, estou triste, contava ter mais, correu-me tão bem! Estou contente, mas vou tentar subir na segunda fase! Nem contava ter tanto! Acabei o 12º ano que era o que eu queria! Tive positiva, afinal pus algumas vírgulas no lugar! Correu bem, já estava a contar com boa nota!…

Sim, meninos, de uma maneira geral, estou contente com o vosso desempenho. As duas turmas ficaram acima da média nacional. Parabéns e, de certeza, que reconhecem/reconhecerão que vale(u) a pena o esforço. Vocês foram as últimas turmas que ajudei a preparar para exame. Obrigada a todos pelo happy end que me proporcionaram.

Um grande xi-coração e que o futuro vos traga muitas alegrias.

 

 

 

 

 

 

Felizmente existe Celebração!

festa festafesta

Para o 12º 1

Se estivéssemos todos na fotografia, mesmo sem muita nitidez, ver-se-ia ainda mais beleza reunida. As ausências eram justificadas: pontuais solicitações, diálogo mais prolongado com amigos que se reviam, risonhas poses para outras fotos…

Todos os rapazes e raparigas do 12º 1, na subida luminosa para o auge da sua beleza, pintalgavam o verde da Quinta da Azenha. Com eles, nem seriam necessárias mais flores. E os professores, também com ar festivo, orgulhosos dos seus alunos, celebravam com eles a alegria dos saberes e afetos.

Parecia que eles tinham iniciado o ensino secundário há pouco tempo e eram já finalistas. Bem próximos, estavam os exames, o ingresso na universidade, a sonhada e conquistada autonomia…

Era o coroar de um ciclo de muitos do futuro.

E a Festa tinha muitas razões para ser celebrada porque, na turma, para além da alegre beleza, felizmente, há bons sentimentos; saberes sempre em progresso; o memorial de cada um está a ser construído para que o voo seja cada vez mais alto; as reflexões sobre o mundo não são apenas ocasionais; o pensamento pode implicar dor e esforço mas vale a pena; a natureza merece ser contemplada para que o ritmo das estações não seja tão perturbado; as águas dos rios remetem para a passagem do tempo onde cabe a calma sabedoria do carpe diem; o mundo pode ser experimentado de diferentes formas, coexistindo criativamente o antigo e o moderno; mensagens com heroica criação de espirituais impérios abrem-se a quem as procura…

“É a hora” de continuarem a avançar! Muitas felicidades!

Um xi-coração

DG                                  ESG, junho 2016

Para o 11º 8 da ESG

Gostaria de vos escrever um poema, mas tal não é necessário e ficaria sempre incompleto.

Para além disso, vocês são um belo poema real: quando sorriem, quando mostram os vossos conhecimentos, quando dançam, quando revelam emoções e sentimentos, quando partilham direitos e deveres…

Ontem, quando estivemos reunidos, ouvindo e sentindo o poema lido pelo António, também à luz do luar, senti que vocês, queridos alunos do 11º 8 e queridas colegas, me estavam a proporcionar um dos mais belos momentos da minha longa vida como professora. Muito obrigada.

Esta orquídea será especial para mim. Tratarei dela com todo o carinho possível – como sinal dos laços que fomos construindo ao longo do tempo e que não quero perder. Vocês são um belo sinal de que o mundo irá ser melhor.

Muitas felicidades para todos.

Um grande xi-coração

DG

índice

Que bom escrever em Liberdade!

Este poema foi escrito há dois anos e venceu um prémio, a nível das escolas do concelho de Gondomar, de Poesia sobre o 25 de Abril.

Parabéns, Carolina!

Vento de mudança!

Um povo sofria calado.
E uma brisa passou…
Gritos de revolta eram abafados em gargantas secas
E uma brisa passou…
Sons bélicos ecoavam num continente longínquo
E uma brisa passou…
Sonhos de liberdade guardados em arcas bafientas
E uma brisa passou…
O catavento começa a rodopiar
e um odor a cravos paira no ar.
Palavras proibidas são ditas
E as arcas são escancaradas.
O vento tudo agita, transforma
e devolve a certeza de dias doces.
Uma brisa passou…
E segredou-nos ao ouvido que abril tinha chegado!

Carolina Ferreira, 11º 8

 

 

Um texto a partir de uma imagem

2f218fd5688cf3726ebf9095491a9498ddef4314Renoir

Nem um barquinho de papel

É fácil recordar-me. Existem objetos e momentos que nos plantam na memória situações vividas.

A manhã estava calma, clara e azul. O mundo parecia limpo e organizado. As pessoas passeavam devagar numa repousada manhã de domingo. Horrores ruidosos do terrorismo, gananciosos crimes de corrupção, gigantescos desastres ambientais, inúmeros migrantes em desespero, multidões de desempregados, caladas e doridas solidões… pareciam injustiças já ultrapassadas.

Na esplanada do pequeno museu, eu escutava vozes de crianças acompanhadas e felizes; via as árvores do parque que espargiam incontáveis perfumes, abria o folheto da exposição de pintura impressionista e saboreava todas as cores e sensações a que tinha acesso.

Tudo decorria como numa bela pintura. As altas árvores eram pessoas serenas que protegiam a harmonia do lugar. Os ramos, como cabelos esvoaçantes na brisa tranquila, semeavam na relva múltiplos verdes. Os montes à volta abraçavam o lugar, emoldurando-o.

Ao fundo, havia baloiços onde as crianças se divertiam e se alegravam pelos sorrisos dos pais.

Bem mais perto, estendia-se um lago onde um pequeno barco à vela deslizava com tempo e com espaço. Num plano ainda mais próximo, duas jovens remavam descontraidamente, mas eu mal lhes via os rostos; apenas os laços dos chapéus e os claros vestidos, cuja imagem dançava na limpidez da água.

Não, não era sonho, nem ilusão de ótica. Tudo era verdadeiro, apresentando-se nitidamente perante todos os meus sentidos.

Tão real como a explosão medonha que, ao fim da manhã e de repente, se fez ouvir a pouca distância.

Enquanto todos os visitantes do museu fugiam, ainda pude ver os barcos virados no lago que não perdera, estrondosamente, a cor azul.

Infelizmente, hoje, passado algum tempo, o lago está poluído e nele não flutua sequer um barquinho de papel.

 

Liberdade

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O Sol doira
Sem literatura
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como o tempo não tem pressa…

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças…
Mas o melhor do mundo são as crianças,

Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

Mais que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca…

Fernando Pessoa

Nota: O poema revela uma certa ironia. Olhem que Fernando Pessoa lia muito! E, por isso também, tão bem escrevia!

 

E se fosse eu?

Reflexão de Tânia Pinto, 11º 8, sobre o mesmo tema

E se fosse eu? É uma pergunta tão difícil… Não sei como me pôr na posição de alguém que vive uma situação tão diferente da minha. Uma situação que acontece tão perto, mas que parece estar tão distante.
Só me resta a imaginação e com ela vejo sofrimento e sacrifício. Bem, se fosse eu, perderia o orgulho, pediria ajuda… Faria tudo para proteger os meus e até os que não o fossem. Afinal, nas piores alturas todo o apoio é um pedacinho de esperança e eu ia precisar de força, assim como os que me rodeassem. Procurando uma vida melhor que trouxesse paz e estabilidade, teria de deixar tudo o resto para trás. Considero-me um tanto nostálgica, o que seria complicado num momento tão frágil.
Sei que teria de passar por um processo de adaptação enorme e que, sendo diferente, iria sempre haver lugar para comentários. Mas as lutas não são fáceis e por isso requerem força de vontade e fé em nós mesmos, especialmente.

Se fosse eu? Quereria ajuda, precisaria de ajuda… Se fosse eu, daria mais valor ao que parece pequeno, com certeza.