Ontem revi uma ex-aluna

Com o carrinho das compras, preparava-me para me dirigir à caixa do supermercado. De repente, vejo uma jovem apressada na minha direção. Logo a reconheci. O mesmo sorriso aberto no rosto bonito e redondo. Como tinha um avental de uma marca de queijos, perguntei-lhe o que fazia ali e se tinha concluído o 12º ano. Que não, mas que ia tentar preparar-se para repetir os exames no próximo ano. Tinha agora aquele part-time: vender queijo, oferecendo bocadinhos para prova.

E que havia pessoas que comiam quase todos os bocadinhos, outras nem para ela nem para a banquinha olhavam.

Sim, queria continuar a estudar e ir para a Faculdade. Olhou e viu duas pessoas inclinadas para o pratinho apetitoso do queijo donde era suposto tirarem apenas um ou dois pedacinhos.

-Adeus, professora, espero que nos encontremos quando eu for advogada!

E correu, mantendo sempre o mesmo sorriso que eu conhecia e que se abria, durante a aula, mais ou menos a meio da fila do lado da janela.

 

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Aos meus (ex-)alunos do 12º 1 e 12º 3

Bom dia, meninos, ou Bom dia a todos – eram as saudações habituais.

Às vezes, não começava logo a aula porque havia mochilas ainda por abrir, conversas que continuavam mesmo que mais rápidas, nem todos estavam sentados, um ou outro tinha-se esquecido do manual, um ou outro pedia uma caneta, um ou outro vinha falar comigo pelas mais diversas razões…

E assim se passaram três anos. Chegaram à sala de aula ainda mais meninos, no décimo ano, e concluíram o 12º já quase adultos. Durante os três anos, houve paixões, ilusões, desilusões, meigas palavras olhadas e sorridentes, palavras frias em olhar desviado, sonhos partilhados, segredos incontidos …

Sonhos  estridentes de quem sempre ouviu elogios pela graça e beleza física; mais silenciosos de quem se habituou a sentir-se menos bafejado pela natureza; apenas pressentidos de quem tudo parecia guardar; de quem sorria muito mas que às vezes chegava ou partia de rosto fechado para a caixa das lágrimas não se abrir…

Ó professora, ando baralhada, não sei que curso hei de escolher. Ajude-me. Isto é muito complicado.

E a minha insistência: atenção, meninos, erros de pontuação, ortográficos ou de acentuação cada um desconta um ponto em exame e olhem que os erros sintáticos descontam dois pontos. E os argumentos têm de mostrar, de forma clara, que vocês têm consciência do mundo à vossa volta. Concentrem-se, organizem o vosso tempo e estudem mostrando o que valem…

Tantas e diferentes reações fui ouvindo a propósito, por exemplo, das obras estudadas: “Adorei o Memorial do Convento. É mesmo fixe. Li-o em quatro dias”. “Nunca li um livro. Eu tenho os resumos”. “Afinal, estou a perceber e a gostar”. “Demora muito tempo a ler e tenho outras coisas para estudar”. “Ainda não comecei, mas você vai ver que vou ler” (Não digas você!! Como deves dizer??)

Meninos, os exames estão à porta, não se preocupem tanto com a Festa de Finalistas.

E chegou a noite tão esperada do baile de Finalistas. E, ao fim da tarde, iam chegando à quinta como príncipes e princesas de contos de encantar. Obrigada, foi a minha avó que fez o meu vestido. Era da minha mãe; só o mandei arranjar. Tive de comprar outro, porque o que eu tinha encomendado não chegou a tempo. Obrigada, também gosto muito e as pulseiras foram feitas pela minha mãe. Tenho os pés a doer, mas não quero tirar os sapatos…

E logo a seguir os exames. Não se preocupe, professora, vou tirar vinte.

E pouco tempo depois: oh, estou triste, contava ter mais, correu-me tão bem! Estou contente, mas vou tentar subir na segunda fase! Nem contava ter tanto! Acabei o 12º ano que era o que eu queria! Tive positiva, afinal pus algumas vírgulas no lugar! Correu bem, já estava a contar com boa nota!…

Sim, meninos, de uma maneira geral, estou contente com o vosso desempenho. As duas turmas ficaram acima da média nacional. Parabéns e, de certeza, que reconhecem/reconhecerão que vale(u) a pena o esforço. Vocês foram as últimas turmas que ajudei a preparar para exame. Obrigada a todos pelo happy end que me proporcionaram.

Um grande xi-coração e que o futuro vos traga muitas alegrias.

 

 

 

 

 

 

Felizmente existe Celebração!

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Para o 12º 1

Se estivéssemos todos na fotografia, mesmo sem muita nitidez, ver-se-ia ainda mais beleza reunida. As ausências eram justificadas: pontuais solicitações, diálogo mais prolongado com amigos que se reviam, risonhas poses para outras fotos…

Todos os rapazes e raparigas do 12º 1, na subida luminosa para o auge da sua beleza, pintalgavam o verde da Quinta da Azenha. Com eles, nem seriam necessárias mais flores. E os professores, também com ar festivo, orgulhosos dos seus alunos, celebravam com eles a alegria dos saberes e afetos.

Parecia que eles tinham iniciado o ensino secundário há pouco tempo e eram já finalistas. Bem próximos, estavam os exames, o ingresso na universidade, a sonhada e conquistada autonomia…

Era o coroar de um ciclo de muitos do futuro.

E a Festa tinha muitas razões para ser celebrada porque, na turma, para além da alegre beleza, felizmente, há bons sentimentos; saberes sempre em progresso; o memorial de cada um está a ser construído para que o voo seja cada vez mais alto; as reflexões sobre o mundo não são apenas ocasionais; o pensamento pode implicar dor e esforço mas vale a pena; a natureza merece ser contemplada para que o ritmo das estações não seja tão perturbado; as águas dos rios remetem para a passagem do tempo onde cabe a calma sabedoria do carpe diem; o mundo pode ser experimentado de diferentes formas, coexistindo criativamente o antigo e o moderno; mensagens com heroica criação de espirituais impérios abrem-se a quem as procura…

“É a hora” de continuarem a avançar! Muitas felicidades!

Um xi-coração

DG                                  ESG, junho 2016

Para o 11º 8 da ESG

Gostaria de vos escrever um poema, mas tal não é necessário e ficaria sempre incompleto.

Para além disso, vocês são um belo poema real: quando sorriem, quando mostram os vossos conhecimentos, quando dançam, quando revelam emoções e sentimentos, quando partilham direitos e deveres…

Ontem, quando estivemos reunidos, ouvindo e sentindo o poema lido pelo António, também à luz do luar, senti que vocês, queridos alunos do 11º 8 e queridas colegas, me estavam a proporcionar um dos mais belos momentos da minha longa vida como professora. Muito obrigada.

Esta orquídea será especial para mim. Tratarei dela com todo o carinho possível – como sinal dos laços que fomos construindo ao longo do tempo e que não quero perder. Vocês são um belo sinal de que o mundo irá ser melhor.

Muitas felicidades para todos.

Um grande xi-coração

DG

índice

Que bom escrever em Liberdade!

Este poema foi escrito há dois anos e venceu um prémio, a nível das escolas do concelho de Gondomar, de Poesia sobre o 25 de Abril.

Parabéns, Carolina!

Vento de mudança!

Um povo sofria calado.
E uma brisa passou…
Gritos de revolta eram abafados em gargantas secas
E uma brisa passou…
Sons bélicos ecoavam num continente longínquo
E uma brisa passou…
Sonhos de liberdade guardados em arcas bafientas
E uma brisa passou…
O catavento começa a rodopiar
e um odor a cravos paira no ar.
Palavras proibidas são ditas
E as arcas são escancaradas.
O vento tudo agita, transforma
e devolve a certeza de dias doces.
Uma brisa passou…
E segredou-nos ao ouvido que abril tinha chegado!

Carolina Ferreira, 11º 8

 

 

Um texto a partir de uma imagem

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Nem um barquinho de papel

É fácil recordar-me. Existem objetos e momentos que nos plantam na memória situações vividas.

A manhã estava calma, clara e azul. O mundo parecia limpo e organizado. As pessoas passeavam devagar numa repousada manhã de domingo. Horrores ruidosos do terrorismo, gananciosos crimes de corrupção, gigantescos desastres ambientais, inúmeros migrantes em desespero, multidões de desempregados, caladas e doridas solidões… pareciam injustiças já ultrapassadas.

Na esplanada do pequeno museu, eu escutava vozes de crianças acompanhadas e felizes; via as árvores do parque que espargiam incontáveis perfumes, abria o folheto da exposição de pintura impressionista e saboreava todas as cores e sensações a que tinha acesso.

Tudo decorria como numa bela pintura. As altas árvores eram pessoas serenas que protegiam a harmonia do lugar. Os ramos, como cabelos esvoaçantes na brisa tranquila, semeavam na relva múltiplos verdes. Os montes à volta abraçavam o lugar, emoldurando-o.

Ao fundo, havia baloiços onde as crianças se divertiam e se alegravam pelos sorrisos dos pais.

Bem mais perto, estendia-se um lago onde um pequeno barco à vela deslizava com tempo e com espaço. Num plano ainda mais próximo, duas jovens remavam descontraidamente, mas eu mal lhes via os rostos; apenas os laços dos chapéus e os claros vestidos, cuja imagem dançava na limpidez da água.

Não, não era sonho, nem ilusão de ótica. Tudo era verdadeiro, apresentando-se nitidamente perante todos os meus sentidos.

Tão real como a explosão medonha que, ao fim da manhã e de repente, se fez ouvir a pouca distância.

Enquanto todos os visitantes do museu fugiam, ainda pude ver os barcos virados no lago que não perdera, estrondosamente, a cor azul.

Infelizmente, hoje, passado algum tempo, o lago está poluído e nele não flutua sequer um barquinho de papel.

 

Liberdade

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O Sol doira
Sem literatura
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como o tempo não tem pressa…

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças…
Mas o melhor do mundo são as crianças,

Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

Mais que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca…

Fernando Pessoa

Nota: O poema revela uma certa ironia. Olhem que Fernando Pessoa lia muito! E, por isso também, tão bem escrevia!